Cesárea de cara nova
Uma técnica recém-chegada promete facilitar a cirurgia e a recuperação das mamães. Boa notícia para o enorme contingente que anda preferindo esse tipo de parto.

Gabriela Cupani

“Faço parto há 30 anos e não imaginava que pudesse haver mudanças na cesárea.” Essa frase revela a surpresa do obstetra paulista Thomaz Gollop quando ouviu falar de uma técnica que estava causando furor na Europa. Há tempos essa cirurgia é muito segura. Num passado remotíssimo, só era feita nos casos em que a mulher estivesse praticamente condenada à morte, seja porque o parto já se anunciasse complicado, seja porque a paciente sofresse de algum mal de difícil tratamento. O bebê, esse também não tinha grandes chances de sobreviver.

A cesárea, como muitas outras técnicas cirúrgicas, evoluiu, mas nada fazia supor que ela, já considerada livre de grandes riscos, progrediria ainda mais. Isso até que um grupo de médicos israelenses resolveu adotar o conceito de cirurgia minimamente invasiva, que ganha cada vez mais terreno na Medicina. Na prática, isso significa menos cortes, menos dor, menor risco de inflamações e infecções. Ao Brasil ela está chegando pelas mãos de Gollop, que já fez mais de 20 partos assim. “Os resultados são excelentes”, empolga-se. Pudera! Como o procedimento é menos agressivo, a paciente se recupera mais rapidamente. Para se ter uma idéia, o número de costura cai de oito para quatro. Como se fosse pouco, o tempo de cirurgia diminui quase pela metade. Tem tudo para ganhar fãs por aqui também.

A cesárea salva vidas nos casos em que levar a gravidez até o final se torna uma ameaça para a mãe ou para o bebê. O problema é que hoje, na grande maioria das vezes, a cirurgia esta sendo feita sem a menor necessidade. Trata-se de uma tendência mundial. O Brasil, antigo recordista, deixou o primeiro lugar no pódio para o Chile. Em cada 100 partos feitos ao pé dos Andes, 45 são cesáreas. Por aqui, a taxa nos hospitais públicos está em torno de 30% - mas na rede privada dispara para quase 90%. Os motivos são muitos. Em primeiro lugar, os exames modernos conseguem apontar com precisão os casos em que a cirurgia é obrigatória, como a má posição da criança ou doenças da mãe. Isso é inegável. É fato, também, que ela evita as lesões ao assoalho pélvico, que podem causar incontinência urinária.

O que ninguém gosta de admitir é que a cesárea é, sim, mais rápidae prática do que o parto normal. Poucos médicos ficam disponíveis 24 horas por dia. Mais que isso, ao optar pela cirurgia o obstetra impaciente se livra do tempo de espera pelo trabalho de parto. Sem contar que, quando a intervenção é bem-feita, o risco de complicações é quase zero – o que diminui a ameaça de processos por erro médico. A bem da verdade – e a favor dos médicos –, é bom lembrar que caiu por terra a mais antiga suspeita de que a cesárea é mais vantajosa financeiramente. Os convênios em geral pagam a mesma coisa pelos dois tipos de procedimentos.

A preferência pela cesárea não é só da turma do jaleco branco. As futuras mamães chegam ao consultório cada vez mais decididas pela cirurgia. Os motivos variam: pode ser medo da dor, das conseqüências de um parto natural, como o corte no períneo, ou para evitar a ansiedade por não ser possível precisar a data. Não há dados brasileiros, mas um estudo americano recém-concluído mostra um aumento de 25% nas cesarianas por opção da mãe.
Os médicos não condenam quem prefere escolher como será o nascimento – desde que isso não ponha em risco a ética profissional ou a saúde da mulher e do bebê. “O médico deve ser sincero desde o início e não pode arranjar desculpas para indicar a cesárea”, opina a obstetra Márcia Maria Dias, do Hospital Samaritano, em São Paulo. A posição da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia não deixa margem de dúvidas. “A cesárea só deve ser feita quando há uma indicação clara”, resume o obstetra Sérgio Martins-Costa, do Hospital das Clínicas de Porto Alegre.

Parto Normal
• Estudos sugerem que ter muitos filhos pela via vagina facilita lesões ao assoalho pélvico. Mas isso depende da idade da mãe e de outros fatores, como o sedentarismo.
• As complicações são um tanto imprevisíveis e exigem um profissional bem preparado para resolvê-las.
• Pode durar entre três e 12 horas.
• O procedimento não invade a cavidade abdominal. Isso significa que o risco de infecções e hemorragias é muito menor.
• As restrições pós-parto são muito menores.
• A dor do parto é mínima com anestesia.

Cesárea
• A gestante pode escolher o dia e a hora do parto.
• Dura cerca de uma hora.
• Evita lesões ao assoalho pélvico.
• Em geral é um procedimento bem seguro e o risco de complicações é baixo.
• O pós-parto costuma ser bem dolorido.
• Depois do nascimento, a paciente precisa de um certo repouso e enfrenta restrições de movimentos para proteger os pontos.

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