Nova Técnica para Cesárea

Thomaz Rafael Gollop

Resumo
Apresentamos nova técnica de cesárea, previamente descrita na literatura euro-americana. A incisão da pele é similar à classicamente descrita por Pfannenstiel. O tecido celular subcutâneo é seccionado transversalmente na área estritamente necessária com bisturi elétrico. A fáscia (ou aponeurose) nunca é dissecada dos músculos reto-abdominais; estes são divulsionados de maneira digital. O peritônio parietal é aberto transversalmente por divulsão digital. Não se realiza descolamento do peritônio visceral. A histerectomia é realizada com divulsão digital ou quando indicada, com tesoura. A sutura dos 2/3 externos do miométrio com o peritônio visceral é realizada com pontos separados de poliglactina 910-0. O peritônio parietal e os músculos reto-abdominais não são suturados. A aponeurose é suturada com pontos separados de poliglactina 910-0. Tecido celular subcutâneo é aproximado com pontos invertidos de poliglecaprone 25-1. A pele é suturada com ponto intradérmico de poliglecaprone 25-30-0. Manipula-se menos tecido, há menor morbidade materna, menor risco de hematomas e menos dor pós-opera´toria. O método é baseado em princípios de cirurgia minimamente invasiva. O número de planos a serem suturados é reduzido de oito para quatro.
PALAVRAS-CHAVE: Cesárea. Obstetrícia operatória. Técnica de Misgaw-Ladach.

Introdução
A ginecologia moderna vive uma revolução nos últimos anos pela incorporação de novas técnicas cirúrgicas que incluem a videolaparoscopia, as cirurgias minimamente invasivas como as minilaparotomias com uso de Protractor e a revitalização das cirurgias vaginais como a histerectomia vaginal em útero sem prolapso. Temos visto também reformulação dos conceitos anatomofuncionais dos defeitos do assoalho pélvico. Seria surpreendente se a obstetrícia operatória continuasse sem inovações. Embora tenhamos inúmeros trabalhos publicados nos últimos anos sobre uma cesárea minimamente invasiva (Pelosi et al., 1995; Stark et al., 1995; Corosu et al., 1997; Grignaffini et al., 1999; Messalli et al., 2001), esta nova técnica ainda não permeou a obstetrícia brasileira.

A cesárea minimamente invasiva foi introduzida na Europa, onde foi muito bem aceita e rapidamente difundida, pelo Prof. Michael Stark e nos Estados Unidos por Marco Pelosi, grande mestre da cirurgia ginecológica com o qual tivemos o privilégio de aprender a nova técnica. Alguns dados da literatura referem-se à cesárea pelo método Misgav-Ladach, nome do Hospital em Jerusalém, Israel, onde se iniciaram as reformulações e onde foi descrita originalmente esta nova técnica (Holmgren et al., 1999). A divulgação do método tornou-se mais ampla após o Congresso Mundial de Ginecologia e Obstetrícia da FIGO em Montreal (1994).

Curiosamente a cesárea teve modificações marginais desde que se tornou prática corrente há um século. Entretanto, há 10 anos, tanto Pelosi quanto Stark ensinam o novo método, Depois de termos utilizado a cesárea minimamente invasiva em 15 casos, com excelente resultado, consideramos importante divulgarmos, se não estivermos enganados pela primeira vez no Brasil, as bases desta técnica. O preparo da paciente segue os parâmetros tradicionais. A tricotomia é limitada ao setor que envolve a incisão cutânea.

Incisão do Abdome
A incisão do abdome é uma incisão transversa 3 a 4 cm acima da sínfise púbica. O comprimento da incisão é individualizado para cada caso. O tecido celular subcutâneo é cortado transversalmente com bisturi elétrico usado na coagulação. Obtém-se hemostasia e não se divulsiona o tecido subcutânio da fáscia adjacente. A fáscia é aberta transversalmente com bisturi elétrico. Os vasos que cruzam a fáscia são coagulados antes de fazermos a incisão da mesma. Os músculos são separados da rafe mediana manualmente. Quando a rafe mediana está espessada utilizamos tesoura ou bisturi elétrico. O peritônio é suspenso e é realizada pequena abertura com tesoura. Através de divulsão digital o peritônio é aberto transversalmente em toda a extensão na incisão. Manualmente extende-se, no sentido transverso, a incisão envolvendo pele, subcutâneo, fáscia, músculos reto-abdominais e peritônio.

Incisão Uterina
Uma pequena incisão uterina é feita no segmento inferior através do miométrio tomando-se o cuidado de evitar a ruptura das membranas cório-amnióticas. A incisão uterina é ampliada com a utilização dos dedos indicadores quando o segmento inferior está fino; caso contrário usa-se tesoura. Não descolamos a bexiga do útero.

Parto
Nas apresentações cefálicas, a mão esquerda do obstetra penetra na cavidade uterina e suspende o pólo cefálico facilitando seu desprendimento. Quando temos dificuldade com a extração do pólo cefálico utilizamos dispositivo com vácuo aplicando pressão de 35 cmH2O (Mytvac, Rochester, USA).

Este dispositivo não é indispensável na técnica de cesárea proposta neste trabalho. Sua aplicação todavia minimiza manipulação intra-uterina além de ter três vantagens: 1) a incisão uterina pode ser feita no tamanho exato do pólo cefálico, 2) o sangramento das bordas da incisão uterina pode ser controlado por pressão uniforme do pólo cefálico quando este é tracionado, 3) o pólo cefálico é desprendido de maneira lenta e suave. Na apresentação pélvica não há dificuldade de desprender o pólo pélvico pelas incisões realizadas. Na situação transversa temos espaço suficiente para a versão pélvica.

Sutura do Útero
Esperamos a dequitação espontânea da placenta. A cavidade uterina é inspecionada para retirada de eventuais restos placentários ou de membranas ovulares. A sutura uterina é realizada com fio de poliglactina 910 número 0, pontos separados interessando 2/3 externos do miométrio e peritônio.
Fazemos a revisão da cavidade abdominal, observando útero, ovários e trompas.

Sutura da Parede Abdominal
Não é necessário suturar o peritônio parietal. Músculos reto-abdominais também não necessitam aproximação. A Aponeurose é suturada com pontos separados de fio de poliglactina 0. O tecido celular subcutâneo é suturado com pontos invertidos de poliglecaprone 25 número 1. a pele é suturada com ponto intradérmico de poliglecaprone 25 número 3-0.

Estimulamos as pacientes a deambularem assim que deixar de surtir efeito a anestesia. A sonda vesical é retirada em média 6 horas após o término da cesárea.

Observações
O uso mais intensivo de bisturi elétrico parece produzir menos dor pós-operatória. A cesárea tradicional requer descolamento amplo da aponeurose da fáscia dos músculos reto-abdominais até a altura do umbigo. Esta etapa requer dissecção extensa e hemostasia criteriosa. Este descolamento nunca é realizado na técnica aqui descrita. A separação tradicional da fáscia inferior relativa aos músculos reto-abdominais e piramidais é desnecessária, associada com incidência maior de formação de hematomas e retardo no processo de cicatrização. Uma histerectomia correta dispensa descolamento vesical. Estudos clínicos controlados com histerectomias com e sem descolamento vesical não estão ainda disponíveis. Devemos assinalar todavia que este descolamento pode promover sangramentos pelas veias engurgitadas do ligamento largo além de aumentar o risco de lesões vesicais. Não suturar o peritônio não aumenta as coplicações pós-operatórias. (Hull et al., 1991 e Pietrantoni et al., 1991).

Considerações Finais
Esta nova técnica de cesárea evita muitas etapas cirúrgicas desnecessárias. Requer menos instrumentos e simplifica tanto a diérese quanto a síntese dos planos cirúrgicos. A literatura disponível tem mostrado que a redução do trauma cirúrgico associado a esta técnica reflete-se em menos dor pós-operatória, melhora a recuperação das pacientes e reduz a morbidade materna. Observa-se menos febre, menor necessidade de antibióticos, menor tempo de recuperação da função intestinal, menos aderências peritoneais e menos fibrose nos planos da parede abdominal. Pelo menor descolamento há menos sangramento da parede abdominal, podendo a técnica ser facilmente utilizada em cirurgias programadas ou de urgência. A abertura transversa do peritônio evita lesões da bexiga. Suturar o peritônio é desnecessário pois forma-se nova camada peritoneal rapidamente. Utilizar menos dissecção e menos suturas torna o procedimento menos oneroso, fator de grande importância especialmente em países em desenvolvimento. A curva de aprendizado é estimada em seis casos.

Nota: O autor se dispõe, no espírito da educação continuada, promover treinamento de seus colegas nos âmbitos assistencial, universitário ou privado.

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