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O que acontece com
os casais após o diagnóstico de malformação
fetal?
Gláucia
Guerra Benute
Thomaz Rafael Gollop
Introdução
Toda mulher apresenta risco potencial de vir a ter um filho malformado.
Este fato representa um medo universal, uma fantasia que todas as
mulheres vivenciam – em maior ou menor grau – quando
se encontram grávidas. A constatação concreta
desta fantasia tem sido cada vez mais possível pelo avanço
tecnológico e da evolução dos equipamentos,
tornando cada vez mais eficiente o rastreamento e o diagnóstico
intra-útero.
Durante o pré-natal, a mulher submete-se a diversos exames
e procedimentos, sem questionar a sua utilidade, buscando garantir
a normalidade de seu filho. Assim, muitas vezes observa-se um desencontro
entre os objetivos dos profissionais que atuam em Medicina Fetal
e o das pacientes. O primeiro busca certificar-se da normalidade
fetal ao passo que o segundo visa confirmar a saúde de seu
filho.
A gestação é, por si só, um momento
gerador de conflitos internos, uma vez que a mulher passa por diversas
alterações fisiológicas, corporais e emocionais.
Ao receber um diagnóstico de malformação fetal,
estes conflitos irão desencadear um processo de crise, que
será vivenciado de modo muito particular por cada gestante/casal.
A partir deste diagnostico os pais terão que iniciar o processo
de luto pela perda do filho idealizado e de adaptação
a nova realidade, um filho com problemas.
A reação emocional ao diagnóstico é
bastante pessoal. Para Irvin et al. (1993), poderão ser encontradas
desde reações racionais em demasia, aparentando calma
e aceitação até reações de descontrole
completo. Cada casal fará uso de mecanismos de defesa disponíveis
no momento. Algumas vezes, ocorre a busca de culpados, gerando conflito
e muitas vezes, comprometendo o vínculo do casal.
Observa-se que o diagnóstico de malformação
fetal provoca sentimento de baixa estima, menos valia e fracasso.
Os pais parecem sentir que ao gerar um filho com problemas estariam
se expondo aos próprios erros e fracassos. Blumberg (1984)
considera que as imperfeições da criança abalam
o narcisismo dos pais, pois faz com que estes de deparem com a falha.
As malformações fetais encontradas nem sempre são
compatíveis com tratamentos. Este fator acaba por acentuar
o sentimento de impotência e de fracasso experimentado pelo
casal. Quando os problemas detectados no feto dizem respeito a uma
incompatibilidade com a vida extra-uterina, o casal terá
a opção de manter a gestação ou solicitar
um alvará judicial para proceder à interrupção
desta. Este processo de decisão deve ser exclusivo do casal,
sendo recomendado que os profissionais não interfiram neste
momento induzindo ou emitindo suas próprias opiniões.
Análise
das Pacientes
Este trabalho se propõe a avaliar o que ocorre com o vínculo
conjugal após o diagnóstico de malformação
fetal incompatível com a vida. Verificar qual a escolha realizada
diante da possibilidade de se solicitar alvará judicial para
interrupção da gestão.
Foram entrevistados 20 casais que receberam o diagnóstico
de malformação fetal incompatível com a vida
e que chegaram para a consulta médica no Instituto de Medicina
Fetal e Genética Humana para confirmação do
diagnóstico e conduta.
Após a consulta médica no Instituto de medicina Fetal
e Genética Humana os casais foram encaminhados ao acompanhamento
psicológico, como parte integrante do protocolo de atendimento.
Resultados
No que concerne aos dados de caracterização dos sujeitos
observou-se que a maior parte das mulheres (60%) tinha a faixa etária
compreendida entre 20 e 30 anos, 15% entre 31 e 35 anos e 26% com
idade de 36 anos ou superior. Já para os homens, 35% tinha
idade igual ou superior a 36 anos, 45% entre 20 e 30 anos e 20%
entre 31 e 35 anos.
Quanto ao número de gestações, a maioria (40%)
engravidou pela primeira vez, ao passo que as demais já haviam
engravidado duas (35%), três (15%) ou mais de três vezes
(10%). O sofrimento desencadeado a partir do diagnóstico
e do insucesso da gestação parece não estar
relacionado ao número de gestações ou de filhos
vivos. A perda gestacional é vivenciada com dor e pesar pro
todas as pacientes. O planejamento e o desejo ou não pela
gestação também parecem não produzir
reações diferentes, observa-se dor, angústia
e sofrimento podendo estes sentimentos serem elaborados de modo
mais rápido ou mais lento de acordo com as características
de personalidade relacionada à perda e ao luto.
Apesar das angústias despertadas, a maior parte das pacientes
(85%) demonstrou compreensão do diagnóstico e da problemática
fetal, algumas vezes o nome da doença não foi mencionado,
mas o casal conseguia relatar com compreensão as complicações
físicas da doença. Foi observada maior facilidade
entre os homens para relatarem as malformações fetais,
já as mulheres não expressavam tanto as características
do(s) problema(s), mas os sentimentos despertados com todas as informações.
É possível que este fato esteja associado à
características culturais que influenciam no desenvolvimento
da personalidade. Homens normalmente conseguem ser mais práticos
e objetivos que as mulheres ao passo que estas apresentam maior
facilidade para falarem de seus sentimentos. Independente das reações
particulares de gênero, o que se pode notar é que apesar
do impacto provocado pela confirmação do diagnóstico,
os casais encontram recursos internos satisfatórios para
prestar atenção e compreender o que estava ocorrendo
com o feto. Este é um fator essencial para subsidiar qualquer
decisão que se possa vir a pensar em tomar.
Pode-se dizer que 70% dos casais conseguiram iniciar o processo
de elaboração de luto, pois conseguiam expressar seu
pesar e de algum modo pareciam estar, aos poucos, reestruturando
a vida, pensando o que fazer com as roupinhas, como proceder para
o enterro, conversando sobre o medo numa próxima gestação.
Na primeira entrevista psicológica, 70% estavam decididos
a solicitar a interrupçãojudicial da gestação,
ao passo que 10% desejavam manter a gestação a termo
e 20% se encontravam em dúvida. Os casais que haviam recebido
o diagnóstico com maior tempo e os que haviam iniciado o
processo de luto tiveram maior facilidade e segurança para
chegar à opção que julgavam ser mais adequada
para minimizar o sofrimento vivenciado.
Não se pode afirmar que a prática de determinada religião
não está diretamente relacionada à opção
de interromper ou não a gestação, embora tenha
sido possível observar maior dificuldade no processo de decisão,
com conflitos internos mais acentuados nas pacientes de religião
evangélica.
Quanto à família de origem, a maior tendência
parece ser desta não interferir na decisão do casal
(40%), 20% dos casais relataram sofrer julgamentos ambíguos,
35% receberam apoio na decisão de interromper e 15% além
de não receberem apoio receberam críticas quanto à
decisão. O julgamento das pessoas da família não
parece estar diretamente relacionado com a opção do
casal. Pode verificar-se, que quando a família se mostra
favorável à decisão apoiando-a independente
de qual seja ela, o casal se sente mais seguro e acolhido despertando
reações emocionais mais favoráveis.
O relacionamento do casal ficou, em 20% dos casos, mais fortalecidos,
o que ocorreu devido ao diálogo constante e a divisão
de todas as angústias, medos, preocupações
e ansiedades. Em 35% dos casos permaneceu igual e 45% ocorreram
maiores desentendimentos, com projeção de raiva, angústia
e culpa. Pode-se notar que quanto maior for a participação
conjunta do casal, com diálogo freqüente, mais fortalecida
a relação se torna.
Considerações
Finais
O diagnóstico de malformação fetal desencadeia
um processo de crise com vivência acentuada de baixa estima,
fracasso, frustração e culpa. A possibilidade de se
solicitar alvará judicial para interrupção
da gestação deve ser avaliada pelo casal. Com a revisão
dos valores internos arraigados em cada um deverá se chegar
a uma opção que vise minimizar esta crise aliviando
angústia e minimizando o sofrimento. A autorização
do juiz representa uma aprovação social e portanto
elimina os sentimentos de culpa desencadeados pelo julgamento moral
da sociedade de modo geral.
O acompanhamento psicológico está indicado para auxiliar
na reavaliação dos processos internos, favorecer a
expressão e a compreensão dos sentimentos existentes,
auxiliar na elaboração do luto, restabelecer o equilíbrio
interno e favorecer o diálogo entre o casal.
Leituras Suplementares
Blumberg BD, Golbus MS, Hanson K. The psychological sequelae
of abortion performed for a genetic indication. J Am Obstet Gynecol
1990; 122:799-808.
Irvin N, Kennel J, Klaus M. Atendimento aos
pais de um bebê com malformação congênita.
In: Klaus M, Kennel J. Pais/bebê: a formação
do apego. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993.
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